Descortino e afasto o passado
Para iluminar o futuro,
Disseco os factos
Para aliviar os fantasmas dos fardos!
Fico dormente, pálida e muda...
Mas tenho que prosseguir
Para acolher o que há-de vir.
Com toda a minha força, ergo a cabeça
Para que não enlouqueça!
Preciso des'render o esforço
Para que não haja espaço para desgosto...
Quebrarei este ciclo da solidão!
Viverei intensamente com o coração
Pois da vida nada temo
E viverei tudo com imenso gosto...
segunda-feira, 29 de Dezembro de 2008
domingo, 28 de Dezembro de 2008
Felicidade
Felicidade
Palavra sem verbo
Não lapidada, ainda, pelo homem
Sentimento que de incertezas é servo
Palavra que faz com que sonhem
Sonhos que por vezes somem
Palavra que será sempre ambicionada
Num mundo corroído pelo poder...
Por alguns odiada, por outros amada,
Mas, plenamente, quem a conseguiu ter?
Felicidade...
Palavra sem verbo
Não lapidada, ainda, pelo homem
Sentimento que de incertezas é servo
Palavra que faz com que sonhem
Sonhos que por vezes somem
Palavra que será sempre ambicionada
Num mundo corroído pelo poder...
Por alguns odiada, por outros amada,
Mas, plenamente, quem a conseguiu ter?
Felicidade...
sábado, 27 de Dezembro de 2008
Lua
O orvalho não me serve
Á solidão de vestimenta...
A chuva não sacia
A sede que me atormenta.
O vento esse incapaz,
De tão pesada, a saudade,
Não consegue manter-me longe
Ou trazer de volta a minha Paz!
Mas a LUA, minha cúmplice,
Essa sim..., tem me ajudado:
Faz imaginar a quem me olha
Ser orvalho, as lágrimas que tenho derramado...
A LUA, sim a LUA...
Na noite que me atormenta
É a única que me recorda:
Viver o que ainda não é passado.
Á solidão de vestimenta...
A chuva não sacia
A sede que me atormenta.
O vento esse incapaz,
De tão pesada, a saudade,
Não consegue manter-me longe
Ou trazer de volta a minha Paz!
Mas a LUA, minha cúmplice,
Essa sim..., tem me ajudado:
Faz imaginar a quem me olha
Ser orvalho, as lágrimas que tenho derramado...
A LUA, sim a LUA...
Na noite que me atormenta
É a única que me recorda:
Viver o que ainda não é passado.
sexta-feira, 26 de Dezembro de 2008
Árvore de Sonhos
Era chegado o momento de se começar a preparar o Natal. Estávamos a escassos dias de mais uma noite mágica.
Nas ruas, a neve caía. As casas, enfeitadas de luzes, sobressaíam no nevoeiro daquela manhã. As pessoas andavam atarefadas, como era hábito, para que nada pudesse ficar em falta. Arranjavam a árvore de Natal, faziam bolinhas, compravam presentes…
À excepção de uma única senhora.
Esta ficava a observar os passos de cada um dos seus vizinhos.
Cassandra era uma senhora de meia-idade, que vivia numa vivenda simples cercada de arbustos que a deixavam isolada dos restantes habitantes da aldeia. Só a sua localização lhe permitia observar o que se passava: ficava no ponto mais alto daquela terra. Para ela, o local era o ideal: nunca poderia ser observada por ninguém.
Cassandra não era uma pessoa muito querida pelas gentes da terra: apesar de todos falarem nela, ninguém a conhecia, ninguém sabia nada acerca da sua vida. A vida de Cassandra era para todos um mistério. Havia comprado aquela casa há já cerca de dezoito anos para a qual se mudou sozinha. Nunca se deu a conhecer e ninguém lhe conhecia qualquer visita… Nem o Sr. António, que era quem sabia tudo da vida daquela aldeia.
Cassandra era, de facto, uma pessoa solitária: tinha perdido o marido. Filhos: nunca teve. Nada lhe importava na vida. Sentia-se só e sem esperança no mundo.
No entanto, não era a mulher que todos julgavam ser. Não! Ela era uma mulher de muitos e generosos sentimentos.
As marcas de uma vida muito dolorosa e amarga faziam-na chorar dia após dia. Quando ali chegou, tinha a esperança de poder continuar a sua vida: sozinha mas com a companhia de todos aqueles seus amáveis vizinhos, todas aquelas maravilhosas crianças…, o que não aconteceu.
Este seria apenas mais um ano em que, para ela, não iria haver Natal. Há muito tempo que perdera o sentido.
Pedro e João são dois meninos desta aldeia. Têm sete anos de idade; um mês de diferença.
Pedro é filho do casal mais abastado da aldeia. Andava radiante com a chegada da noite de Natal: um dos momentos do ano que mais gostava, tal como a grande maioria das crianças da sua idade.
Já João mostrava-se tristonho.
Os pais de João eram pessoas bastante humildes. O pai tinha o seu ganha-pão na agricultura, sempre sujeito a algumas partidas que a mãe Natureza lhe pudesse pregar; a mãe não gozava de boa saúde: as gripes constantes de outrora, haviam-na deixado marcada com graves problemas respiratórios que a impediam de ter uma vida normal.
João era o mais velho de quatro irmãos.
Tudo naquela família era conseguido com um sacrifício quase sobre-humano.
Pedro, na sua casa, tinha já uma árvore de Natal rodeada de imensos presentes que o deixavam num êxtase incontrolável; João tinha visto negada pelo pai a hipótese de ir cortar um pinheiro para decorar com algumas fitas de papel que havia recortado. Segundo o pai de João, era graças a atitudes dessas que a mãe Natureza muitas vezes se mostrava zangada.
João brincava com os seus irmãos, junto ao calor da lareira, enquanto a mãe, com alguma dificuldade, preparava os únicos dois ovos que lhe restavam para o jantar de todos.
Os pensamentos de João pareciam estar ausentes. E estavam…
Quando pediu ao pai se poderia cortar um pinheiro não foi por falta de preocupação com a Natureza: viu os pais de todos os seus amigos a fazê-lo e achou que mais um não faria a diferença. Quando viu negada essa hipótese, deslocou-se ao local onde tinha visto o seu pinheiro, levou consigo todas as fitas de papel e decorou-o. Ficou sentado a olhar aquela que achava ter sido a sua mais bonita obra dos últimos tempos.
Sem perceber, estava bem próximo da casa de Cassandra que, enternecida, chorava ao espreitar tão doce menino. Logo que deu pela presença da senhora, levantou-se pronto para voltar a casa.
Mas, para seu espanto, Cassandra disse-lhe:
- Querido, não te assustes. Vem cá…
A medo, mas a observar o olhar meigo de Cassandra, João aproximou-se.
- Que linda árvore de Natal! Só faltam os presentes, a família e uma mesa com doces: e tudo fica pronto para comemorar a noite de Natal! – exclamou Cassandra, com todo o seu carinho.
João não conseguiu controlar as lágrimas que teimavam em inundar-lhe os olhos. Já começavam a correr-lhe pela face seca do frio de Inverno.
Cassandra, de forma cautelosa, baixou-se e abraçou o menino.
- Diz-me querido, o que te faz chorar?
A muito custo, João controlou-se e conseguiu dizer algumas palavras:
- Tenho esta árvore… mas não tenho mais nada para a minha família comemorar o Natal. O meu pai trabalha muito e anda sempre zangado, a minha mãe está muito doente… não sei o que eu e os meus irmãos vamos comer na noite de Natal e sei que não vamos ter presentes…
Nesse momento, passou Pedro na companhia dos pais: brincavam com a neve. Faziam lindos bonecos, atiravam bolas uns aos outros… As suas gargalhadas não os deixaram passar sem se fazerem notar. Pedro, ao ver João na companhia de Cassandra começou a troçar dele. João não entendia o porquê daquela atitude, mas Cassandra sabia. Cassandra sabia que era chamada dos mais diversos e desagradáveis nomes pelos seus vizinhos; e parecia que nem a algumas crianças isso escapava.
Dias depois, era véspera de Natal.
Pedro andava pelas ruas a contar aos amigos o número de presentes que tinha na sua magnífica árvore, os doces deliciosos que a mãe estava a preparar para aquela noite.
João estava sentado com os irmãos, perto da porta de casa, a partir alguns galhos de árvore que iriam servir para aquecer aquela noite.
Como eram diferentes os seus mundos…
Pela primeira vez em dezoito anos, Cassandra percorreu as ruas da aldeia. O espanto de todos era impossível de disfarçar. Burburinhos passavam de boca em boca. Mas o que estaria a acontecer? Porque teria tal pessoa vindo à aldeia? O Sr. António dizia até que poderia ser um mau presságio!
Cassandra dirigiu-se a casa da família de João. Entrou e, para desalento de todos os que ficaram de fora, ninguém soube o que se passou dentro daquelas paredes.
Cerca de uma hora depois, João, os seus pais e irmãos saem com Cassandra em direcção à casa desta.
Quando entram não queriam acreditar! Uma casa confortável, quentinha, uma mesa não muito abastada mas com tudo o que nunca haviam sequer experimentado; uma árvore de Natal minuciosamente decorada com alguns presentes em seu redor… Tudo como se de um sonho se tratasse. Mas era real!
Todos comeram, brincaram, riram… até Cassandra voltou a viver o Natal.
Viveram uma noite que nunca iriam apagar das suas memórias.
No dia seguinte, quando João acordou, a sua nova amiga e o seu pai estavam na sala a conversar com um sorriso estampado na cara.
Curioso, aproximou-se.
- João, a Cassandra já vive sozinha há muitos anos e não tem família. Convidou-nos para virmos morar com ela. O que achas? – perguntou-lhe o pai com um tom de voz meigo que lhe desconhecia.
O menino não coube em si de tanta felicidade. Não sabia se estaria a sonhar, se estaria acordado, não sabia o que dizer…
Era bom demais. Todos os seus problemas iriam ter um fim: o pai que já não tinha que trabalhar de forma tão dura para dar de comer à família (o que poderia devolver-lhe, também, a boa disposição e a atenção que raramente lhes dedicava), a mãe que podia ter condições para curar uma boa parte dos seus problemas de saúde, ele e os irmãos iriam poder alimentar-se como todas as outras crianças, todos passavam a dormir numa cama quentinha… Nem sabia o que pensar!
Os pais nunca lhe haviam ensinado o significado certo da palavra milagre… Seria aquilo um milagre?...
Cassandra pegou-o pela mão e dirigiu-se para a porta.
Caminharam alguns metros e perguntou-lhe:
- Lembras-te daquela árvore de Natal? – apontando para o pequeno pinheiro ainda com os restos de algumas fitas de papel.
- Sim...- respondeu ele, expectante.
- Foi junto dela que recebemos os nossos maiores e verdadeiros presentes de Natal! – exclamou Cassandra.
O menino entendeu o sentido de cada palavra que ela tinha acabado de dizer. Entendeu, também, que não era um milagre: a não ser que milagre fosse o significado de toda a bondade de Cassandra… Mas isso agora não era importante para ele… A felicidade que sentia não lhe permitia clarear os seus pensamentos…
A neve caía, o vento frio soprava, mas nada poderia interromper o abraço que trocaram a seguir àquelas palavras, àqueles pensamentos. O calor do Amor era muito mais do que o frio do Inverno.
Foram, de facto, verdadeiros presentes de Natal para ambos: a solidão de Cassandra terminara ali; as preocupações que não deveriam fazer parte da vida de um menino da idade de João esvaneceram-se…
Aquele Natal iria ficar na memória dos habitantes daquela aldeia: Cassandra era, afinal, uma senhora bem diferente do que alguma vez alguém imaginara; a família de João passara a ter uma vida bem mais digna do que havia sido até ali – fruto da bondade daquela senhora.
E na Árvore dos Sonhos ninguém se atrevera a tocar: passou a ser o local preferido de João e de Cassandra! Era lá que o menino e os seus irmãos se deliciavam a ouvir todas as histórias que Cassandra, sempre muito terna, tinha para lhes contar… Nunca eram demais!
Os meninos adoravam ouvir todas aquelas aventuras que os faziam sonhar; Cassandra vivia naquelas histórias os melhores momentos dos últimos anos da sua vida…
(nota: este conto sofreu algumas alterações comparativamente ao original enviado para a Casa do Gil e postado ali ao lado)
Nas ruas, a neve caía. As casas, enfeitadas de luzes, sobressaíam no nevoeiro daquela manhã. As pessoas andavam atarefadas, como era hábito, para que nada pudesse ficar em falta. Arranjavam a árvore de Natal, faziam bolinhas, compravam presentes…
À excepção de uma única senhora.
Esta ficava a observar os passos de cada um dos seus vizinhos.
Cassandra era uma senhora de meia-idade, que vivia numa vivenda simples cercada de arbustos que a deixavam isolada dos restantes habitantes da aldeia. Só a sua localização lhe permitia observar o que se passava: ficava no ponto mais alto daquela terra. Para ela, o local era o ideal: nunca poderia ser observada por ninguém.
Cassandra não era uma pessoa muito querida pelas gentes da terra: apesar de todos falarem nela, ninguém a conhecia, ninguém sabia nada acerca da sua vida. A vida de Cassandra era para todos um mistério. Havia comprado aquela casa há já cerca de dezoito anos para a qual se mudou sozinha. Nunca se deu a conhecer e ninguém lhe conhecia qualquer visita… Nem o Sr. António, que era quem sabia tudo da vida daquela aldeia.
Cassandra era, de facto, uma pessoa solitária: tinha perdido o marido. Filhos: nunca teve. Nada lhe importava na vida. Sentia-se só e sem esperança no mundo.
No entanto, não era a mulher que todos julgavam ser. Não! Ela era uma mulher de muitos e generosos sentimentos.
As marcas de uma vida muito dolorosa e amarga faziam-na chorar dia após dia. Quando ali chegou, tinha a esperança de poder continuar a sua vida: sozinha mas com a companhia de todos aqueles seus amáveis vizinhos, todas aquelas maravilhosas crianças…, o que não aconteceu.
Este seria apenas mais um ano em que, para ela, não iria haver Natal. Há muito tempo que perdera o sentido.
Pedro e João são dois meninos desta aldeia. Têm sete anos de idade; um mês de diferença.
Pedro é filho do casal mais abastado da aldeia. Andava radiante com a chegada da noite de Natal: um dos momentos do ano que mais gostava, tal como a grande maioria das crianças da sua idade.
Já João mostrava-se tristonho.
Os pais de João eram pessoas bastante humildes. O pai tinha o seu ganha-pão na agricultura, sempre sujeito a algumas partidas que a mãe Natureza lhe pudesse pregar; a mãe não gozava de boa saúde: as gripes constantes de outrora, haviam-na deixado marcada com graves problemas respiratórios que a impediam de ter uma vida normal.
João era o mais velho de quatro irmãos.
Tudo naquela família era conseguido com um sacrifício quase sobre-humano.
Pedro, na sua casa, tinha já uma árvore de Natal rodeada de imensos presentes que o deixavam num êxtase incontrolável; João tinha visto negada pelo pai a hipótese de ir cortar um pinheiro para decorar com algumas fitas de papel que havia recortado. Segundo o pai de João, era graças a atitudes dessas que a mãe Natureza muitas vezes se mostrava zangada.
João brincava com os seus irmãos, junto ao calor da lareira, enquanto a mãe, com alguma dificuldade, preparava os únicos dois ovos que lhe restavam para o jantar de todos.
Os pensamentos de João pareciam estar ausentes. E estavam…
Quando pediu ao pai se poderia cortar um pinheiro não foi por falta de preocupação com a Natureza: viu os pais de todos os seus amigos a fazê-lo e achou que mais um não faria a diferença. Quando viu negada essa hipótese, deslocou-se ao local onde tinha visto o seu pinheiro, levou consigo todas as fitas de papel e decorou-o. Ficou sentado a olhar aquela que achava ter sido a sua mais bonita obra dos últimos tempos.
Sem perceber, estava bem próximo da casa de Cassandra que, enternecida, chorava ao espreitar tão doce menino. Logo que deu pela presença da senhora, levantou-se pronto para voltar a casa.
Mas, para seu espanto, Cassandra disse-lhe:
- Querido, não te assustes. Vem cá…
A medo, mas a observar o olhar meigo de Cassandra, João aproximou-se.
- Que linda árvore de Natal! Só faltam os presentes, a família e uma mesa com doces: e tudo fica pronto para comemorar a noite de Natal! – exclamou Cassandra, com todo o seu carinho.
João não conseguiu controlar as lágrimas que teimavam em inundar-lhe os olhos. Já começavam a correr-lhe pela face seca do frio de Inverno.
Cassandra, de forma cautelosa, baixou-se e abraçou o menino.
- Diz-me querido, o que te faz chorar?
A muito custo, João controlou-se e conseguiu dizer algumas palavras:
- Tenho esta árvore… mas não tenho mais nada para a minha família comemorar o Natal. O meu pai trabalha muito e anda sempre zangado, a minha mãe está muito doente… não sei o que eu e os meus irmãos vamos comer na noite de Natal e sei que não vamos ter presentes…
Nesse momento, passou Pedro na companhia dos pais: brincavam com a neve. Faziam lindos bonecos, atiravam bolas uns aos outros… As suas gargalhadas não os deixaram passar sem se fazerem notar. Pedro, ao ver João na companhia de Cassandra começou a troçar dele. João não entendia o porquê daquela atitude, mas Cassandra sabia. Cassandra sabia que era chamada dos mais diversos e desagradáveis nomes pelos seus vizinhos; e parecia que nem a algumas crianças isso escapava.
Dias depois, era véspera de Natal.
Pedro andava pelas ruas a contar aos amigos o número de presentes que tinha na sua magnífica árvore, os doces deliciosos que a mãe estava a preparar para aquela noite.
João estava sentado com os irmãos, perto da porta de casa, a partir alguns galhos de árvore que iriam servir para aquecer aquela noite.
Como eram diferentes os seus mundos…
Pela primeira vez em dezoito anos, Cassandra percorreu as ruas da aldeia. O espanto de todos era impossível de disfarçar. Burburinhos passavam de boca em boca. Mas o que estaria a acontecer? Porque teria tal pessoa vindo à aldeia? O Sr. António dizia até que poderia ser um mau presságio!
Cassandra dirigiu-se a casa da família de João. Entrou e, para desalento de todos os que ficaram de fora, ninguém soube o que se passou dentro daquelas paredes.
Cerca de uma hora depois, João, os seus pais e irmãos saem com Cassandra em direcção à casa desta.
Quando entram não queriam acreditar! Uma casa confortável, quentinha, uma mesa não muito abastada mas com tudo o que nunca haviam sequer experimentado; uma árvore de Natal minuciosamente decorada com alguns presentes em seu redor… Tudo como se de um sonho se tratasse. Mas era real!
Todos comeram, brincaram, riram… até Cassandra voltou a viver o Natal.
Viveram uma noite que nunca iriam apagar das suas memórias.
No dia seguinte, quando João acordou, a sua nova amiga e o seu pai estavam na sala a conversar com um sorriso estampado na cara.
Curioso, aproximou-se.
- João, a Cassandra já vive sozinha há muitos anos e não tem família. Convidou-nos para virmos morar com ela. O que achas? – perguntou-lhe o pai com um tom de voz meigo que lhe desconhecia.
O menino não coube em si de tanta felicidade. Não sabia se estaria a sonhar, se estaria acordado, não sabia o que dizer…
Era bom demais. Todos os seus problemas iriam ter um fim: o pai que já não tinha que trabalhar de forma tão dura para dar de comer à família (o que poderia devolver-lhe, também, a boa disposição e a atenção que raramente lhes dedicava), a mãe que podia ter condições para curar uma boa parte dos seus problemas de saúde, ele e os irmãos iriam poder alimentar-se como todas as outras crianças, todos passavam a dormir numa cama quentinha… Nem sabia o que pensar!
Os pais nunca lhe haviam ensinado o significado certo da palavra milagre… Seria aquilo um milagre?...
Cassandra pegou-o pela mão e dirigiu-se para a porta.
Caminharam alguns metros e perguntou-lhe:
- Lembras-te daquela árvore de Natal? – apontando para o pequeno pinheiro ainda com os restos de algumas fitas de papel.
- Sim...- respondeu ele, expectante.
- Foi junto dela que recebemos os nossos maiores e verdadeiros presentes de Natal! – exclamou Cassandra.
O menino entendeu o sentido de cada palavra que ela tinha acabado de dizer. Entendeu, também, que não era um milagre: a não ser que milagre fosse o significado de toda a bondade de Cassandra… Mas isso agora não era importante para ele… A felicidade que sentia não lhe permitia clarear os seus pensamentos…
A neve caía, o vento frio soprava, mas nada poderia interromper o abraço que trocaram a seguir àquelas palavras, àqueles pensamentos. O calor do Amor era muito mais do que o frio do Inverno.
Foram, de facto, verdadeiros presentes de Natal para ambos: a solidão de Cassandra terminara ali; as preocupações que não deveriam fazer parte da vida de um menino da idade de João esvaneceram-se…
Aquele Natal iria ficar na memória dos habitantes daquela aldeia: Cassandra era, afinal, uma senhora bem diferente do que alguma vez alguém imaginara; a família de João passara a ter uma vida bem mais digna do que havia sido até ali – fruto da bondade daquela senhora.
E na Árvore dos Sonhos ninguém se atrevera a tocar: passou a ser o local preferido de João e de Cassandra! Era lá que o menino e os seus irmãos se deliciavam a ouvir todas as histórias que Cassandra, sempre muito terna, tinha para lhes contar… Nunca eram demais!
Os meninos adoravam ouvir todas aquelas aventuras que os faziam sonhar; Cassandra vivia naquelas histórias os melhores momentos dos últimos anos da sua vida…
(nota: este conto sofreu algumas alterações comparativamente ao original enviado para a Casa do Gil e postado ali ao lado)
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